Ansiedade infantil e o excesso de tecnologia

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Foto: Rayan Ribeiro

Profissionais falam sobre causas, sintomas, além de medidas educativas e médicas para tratar o problema que afeta cada vez mais a primeira infância

O Brasil é campeão mundial no índice de ansiedade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 9,3% da população manifesta o quadro. E ela pode afetar pessoas de qualquer idade. De acordo com a Associação Americana de Ansiedade e Depressão, uma em cada oito crianças pode apresentar sintomas de ansiedade desenvolvendo um quadro de forma mais leve ou até patológicos.

E para piorar, especialistas estão vendo o aumento desse número, por causa da rotina atribulada e cheia de cobranças da vida moderna. Uma pesquisa do professor Fernando Asbahr, da Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, divulgada no início de 2018, mostrou que, aproximadamente 10% das crianças e adolescentes brasileiras têm ou terão algum tipo de ansiedade em algum momento da vida.

Quando acontece na infância, a ansiedade pode prejudicar o desenvolvimento psicológico, social e até mesmo escolar dos pequenos. Segundo o psiquiatra Roney Vargas, da Aliança Instituto de Oncologia, a maioria das crianças experimenta vários medos e isso pode trazer a ansiedade durante a infância, mesmo alguns desses medos sendo específicos do estágio do desenvolvimento. “Em contraste com medos, a ansiedade é definida como uma resposta antecipatória a uma ameaça percebida, tanto interna como externa”, explica o médico.

Mas, é importante lembrar que a ansiedade por si só é uma emoção fundamental, o problema é quando ela é exagerada e recorrente, se tornando uma doença, que é o que vem acontecendo na sociedade hoje. A ansiedade é hoje uma verdadeira pandemia em todo o mundo, tornando-se o “mal do século”.

Causas e consequências da ansiedade

De acordo com Vargas, transtornos psiquiátricos podem ser algumas causas da ansiedade das crianças, porém não todas. Do ponto de vista ambiental, há algumas situações com um potencial de gerar ansiedade de forma mais intensa entre os pequenos, como a questão da separação da família para ingressar no ambiente escolar, a questão de falar em público ou, por exemplo, ser submetido a uma avaliação.

Na maioria dos casos, a ansiedade prejudica o desenvolvimento infantil, seja na escola ou não. “A ansiedade gera encolhimento das capacidades, habilidades e potencialidades das crianças, as torna temerosas, recolhidas. Afeta a alimentação, o sono, a respiração. A ansiedade é um transtorno. Gera tristeza, gera depressão”, pontua Paulo Wolker, cientista político, educador e sócio do Instituto Ideaah.

Dentro da sala de aula, é comum notar a ansiedade nos pequenos, quando eles não aprendem, não brincam, não relaxam, não se expressam como os jovens deveriam. Segundo o educador, a escola deveria ser, em primeiro lugar, um local de paz. “Onde a criança se sente cuidada e protegida e, por isso mesmo, não tenha medo e nem ansiedade. O mais indicado é que a sala de aula esteja protegida com todas as atividades, ações e dinâmicas típicas desse lugar. Não há uma ‘atividade remédio’ para o medo ou a ansiedade, há ambientes, espaços e locais protetores, onde a criança se sinta cuidada e amparada”, explica o educador.

A influência da tecnologia entre as crianças

Um fator que também deve ser muito observado pelos pais é a influência da tecnologia. “Segundo um estudo americano, crianças a partir de dois anos de idade, apresentaram ansiedade ou depressão após o contato intenso com jogos virtuais, smartphones e televisão”, relata o psiquiatra Roney Vargas. Mesmo depois de apenas uma hora de uso dessas telas diariamente, crianças e adolescentes podem começar a ter menos curiosidade, menor autocontrole, menos estabilidade emocional e maior incapacidade de terminar tarefas, relata Jean Twenge, psicólogo da Universidade Estadual de San Diego e Keith Campbell, professor de psicologia da Universidade da Geórgia.

Segundo o educador Wolker, a tecnologia pode colocar a criança frente a um mundo que sua maturidade, desenvolvimento e entendimento ainda não podem suportar. Esse impacto pode ser devastador para a segurança da criança e pode causar muito medo. Uma cena de massacre coletivo, com vários corpos mutilados de jovens e crianças, que é possível ser visto no Youtube, já é muito impactante para um adulto, imagine para uma criança.

Esse tipo de ansiedade pode gerar uma série de respostas fisiológicas que afetam o sistema cardíaco, pulmonar, gastrointestinal e neurológico. “Além disso, a ansiedade cursa com sintomas cognitivos, como sensação de perda de controle ou perder a cabeça, pensamentos indesejados e intrusivos, desatenção, insônia e mesmo distúrbios de percepção, como despersonalização ou imagens visuais vagas”, esclarece Vargas.

Dicas para amenizar a ansiedade dos pequenos

O cientista político e educador, Paulo Wolker, ensina a importância de se reforçar na criança uma visão otimista e positiva da vida e do mundo. “Problemas, sejam eles afetivos, financeiros, nunca devem ser expostos à criança”, diz.

Os pais ou responsáveis devem também garantir a atenção, o cuidado e a proteção das crianças, mostrando que eles sempre têm alguém para confiar. “Evidencie a presença do adulto como cuidador e protetor, deixar claro para a criança que vocês têm o papel de manter a segurança deles”, ensina Wolker.

O profissional também indica reforçar o foco da criança no presente, no que ela está fazendo agora, de modo que ela tenha a sua atenção na sua brincadeira, no seu brinquedo, nos seus colegas e não no futuro. “Cuide para que a criança tenha atenção consigo mesma, com sua respiração, com o seu entorno, com seu corpo, com que ela está fazendo”, orienta.

Quando a ansiedade afeta as relações sociais dos pequenos, há necessidade de sempre realizar uma avaliação clínica. De acordo com psiquiatra Roney Vargas, em primeiro lugar deve se optar por terapias psicológicas como a TCC ou comportamental, além de estratégias psicoeducacionais. Somente em casos com impacto considerável no funcionamento da criança deve-se lançar mão de medicações. Todavia, essas ações devem sempre caminhar com medidas psicológicas e educacionais”, conclui.

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