Maternidade X Trabalho

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Conciliar maternidade e trabalho ainda é um enorme desafio para grande parte das mulheres. Estudos mostram que metade delas não retorna ao trabalho após a licença-maternidade, enquanto os números do empreendedorismo feminino só crescem

Por Luciana Albuquerque

Após a tão sonhada maternidade, quase metade das mulheres perde seus empregos. Segundo a pesquisa “Licença-maternidade e suas consequências no mercado de trabalho do Brasil”, divulgada em 2016 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), 48% das mulheres, entre 25 e 35 anos, que saíram de licença-maternidade entre 2009 e 2012 não retornaram aos seus empregos 12 meses após o nascimento dos filhos. Uma outra pesquisa, divulgada em 2018 pela em-presa de recrutamento Catho, constatou que o número de mulheres que deixa o mercado de trabalho após a maternidade é cinco vezes maior do que o de homens, sendo 28% contra 5%. E mais, 21% dessas mães levam mais de três anos para retornarem ao trabalho.

Segundo Fabiana Pinho, Gerente da Unidade de Educação e Empreendedorismo do Sebrae/MG, no mundo corporativo ainda existem pessoas que não acreditam na capa-cidade da mulher em conciliar as atividades profissionais, do lar e os cuidados com os filhos. “Certamente essa crença reduziria se as mulheres tivessem pessoas que pudes-sem, de fato, compartilhar as atividades e reduzir esse desequilíbrio da jornada dupla ou tripla de trabalho, o que possibilitaria uma maior produtividade”, alerta Fabiana.

Contar com uma rede de apoio é fundamental para que as mães retornem aos seus postos de trabalho e continuem investindo em suas carreiras, como é o caso de Ingrid Ribeiro. “Continuei trabalhando após minhas duas gestações, voltei a estudar com meus filhos ainda pequenos, cursei pedagogia, fiz duas pós-graduações, passei em um segundo concurso público, assumi um novo cargo e iniciei meu mestrado em Educação. Sempre me dediquei muito à carreira, viajo para congressos e eventos e nunca parei de estudar. Acredito que esse é um ponto muito importante para nós mulheres. Mas, para realizar tudo isso contei com uma forte rede de apoio, formada minha mãe e meu esposo, que divide integralmente as tarefas de casa e dos filhos. Sem eles não teria conseguido nunca”, relata Ingrid.

E mesmo após perderem seus empregos, muitas mães ainda encontram dificuldades para se recolocarem no mercado de trabalho e passam a ouvir perguntas em processos seletivos que não são feitas aos homens. A vendedora Thayane Nery, mãe de um bebê de 9 meses ainda sente na veia essa angústia. “Não consigo emprego de jeito nenhum. Sempre perguntam do filho, quantos anos ele tem, com quem eu deixo e por aí vai”, conta. Segundo ela, os empregadores deixam claro que, mesmo atendendo ao perfil da vaga o problema é ter um filho. “Só este ano já fiz oito entrevistas e o que vejo são semblantes de insatisfação quando falo que sou mãe. Se falo a idade então, já justificam que ele requer muita atenção. E mesmo eu dizendo que meu filho está na creche e meu marido trabalha em casa e tem total disponibilidade para cuidar do bebê caso haja uma emergência não adianta”, lamenta a jovem.

O fato é que as mulheres passaram a ocupar novos espaços, assumiram novos papéis, mas continuam sendo as principais ou únicas responsáveis pela criação dos filhos. De acordo com o Google Survey de fevereiro de 2019, somente 1 em cada 4 mulheres dividem igualmente as tarefas relacionadas à criação dos filhos, 30% são mãe solo e 35% dividem a responsabilidade, mas fazem a maior parte. E nesse sentido as empresas ainda se assustam com a presença das mães, não acreditando que elas possam ser profissionais tão presentes e engajadas como os homens, apesar de darem conta dessa tripla jornada como ninguém. “A mulher quando se torna mãe, desenvolve várias habilidades que contribuem fortemente para o mundo corporativo, como administração do tempo, comunicação, liderança, empatia”, relata Fabiana. Para ela, o caminho para resolver esse impasse é que as empresas invistam em programas que façam a mulher perceber a importância do seu trabalho e ao mesmo tempo trabalhem com todos os funcionários da empresa a conscientização da equidade de gêneros. “Uma outra opção é criar políticas internas, como o trabalho de casa, por home office e horários mais flexíveis, principalmente nos primeiros anos de vida da criança”, sugere a gerente do Sebrae/MG.

Mães Empreendedoras
De acordo com o relatório especial, “Empreendedorismo Feminino no Brasil”, de março de 2019, do Sebrae, o número de mulheres empreendedoras aumentou 34% em 14 anos, sendo que a maioria (44%) decidiu “empreender por necessidade”. Isso quer dizer, de acordo com Fabiana, que elas tiveram a necessidade financeira e precisaram empreender. Segundo pesquisa feita pela Rede Mulher Empreendedora (RME), uma plataforma de apoio ao empreendedorismo feminino do Brasil, 75% das mulheres empreendedoras no país criaram seus próprios negócios após se tornarem mães. Além disso, de cada 100 empresas abertas, 52 são administradas por mulheres. Ao verem as portas do mundo corporativo se fechando, muitas mães migraram para o caminho do empreendedorismo, como é o caso é o de Bruna Laviola Crude, mãe da Melissa, de 1ano e 9 meses. Ela sofreu assédio-moral dentro da empresa em que trabalhou por muitos anos, após seu retorno da licença-maternidade, o que a deixou com depressão, ansiedade e síndrome do pânico. “Cheguei a ouvir que eu deveria ser mãe apenas depois das 18h, quando saia da empresa”, lembra Bruna. Mas, nesse caso, a demissão lhe deu coragem para tocar o sonho de empreender, ao lado do marido, com quem ela abriu uma empresa de comida para criança, a Meu Primeiro Sabor.

Há vantagens para a mãe empreendedora, como administrar melhor seu tempo e poder acompanhar de perto o crescimento do filho, mas é preciso muita organização e apoio para ter sucesso. “As mulheres desistem mais fácil de seus empreendimentos e um dos motivos é a sobrecarga de responsabilidades, ou seja, a divisão de tarefas em uma família torna-se um problema social à medida que a contribuição da mulher na economia é prejudicada por essa questão”, ressalta Fabiana.

Apoiar as profissionais que têm filhos é fundamental para que as mulheres possam continuar a empreender e crescer no mercado, tanto em empresas formais quanto com o próprio negócio. No caso de Fabiana Pinho, que também é mãe, foi fundamental receber apoio dentro da empresa para seguir com uma carreira e sucesso. Ela começou a trabalhar no Sebrae/MG há 17 anos como estagiária e atualmente é Gerente da Unidade de Educação e Empreendedorismo. “Quando fui convidada a assumir o cargo gerencial já era mãe, porém o Lucas era bem novinho. Mas, sempre contei muito com toda a equipe da empresa, principalmente da liderança, além da minha família e do meu marido, que divide igualmente as responsabilidades comigo, o que fez e faz toda a diferença. Para mim, sempre foi muito importante associar o meu crescimento profissional com o pessoal. Somente assim consigo me sentir feliz”, conta.

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